Domingo I da Quaresma – ano A – 22 de fevereiro de 2026

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Domingo I da Quaresma – ano A – 22 de fevereiro de 2026

1 – Jesus fez-Se pobre para nos enriquecer com a Sua pobreza (cf. 2 Cor 8,9). Deus manifesta-Se, não pelo poder, pelo luxo, pelo espetacular, mas comunica-Se pelo amor, pela Cruz, pelo despojamento. A Encarnação de Deus, Jesus Cristo feito Homem, dá-nos esta certeza de que Deus nos assume por inteiro, na nossa humana fragilidade e finitude, não por imposição mas por comunhão, por amor.

A Carta de são Paulo aos Filipenses recolhe um hino sobre o abaixamento de Cristo, tornando claro que Cristo, sendo de condição divina, não se valeu de Sua igualdade com Deus, mas identificou-Se com o ser humano (cf. Fil 2, 6-11). Sendo inocente, faz-Se pecado, faz-Se homem (cf. 2 Cor 5, 21), assumindo-nos, salvando-nos, levando-nos aos ombros, como o Bom Pastor, carregando-nos e por nós e para nossa salvação carregando a Cruz.

Neste primeiro domingo da Quaresma, caminho aberto por Jesus para a eternidade de Deus, são-nos apresentadas as tentações do Mestre da Vida. De novo se visualiza o abaixamento (Kénose) de Jesus. Identifica-se connosco. Experimenta a dúvida, o cansaço da caminhada, o silêncio de Deus no meio das dificuldades. Chegam-nos aos ouvidos e ao coração aquelas palavras da Cruz: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?»

A tentação do poder, do sucesso fácil, de um caminho macio. A tentação de usar o poder e a missão em benefício próprio. A tentação de usar Deus e a religião para escravizar os outros, libertando-se solitariamente. Mas Deus está lá no deserto, lugar da dúvida, de pobreza e de despojamento, lugar da tentação, encontro consigo próprio, mas também lugar para um silêncio construtivo. Lá, no meio do deserto e do silêncio, é mais fácil perscrutar a voz de Deus. Aliás, é o mesmo Espírito Santo que se manifesta no Batismo que ora O conduz ao deserto. Quarenta dias ou o tempo necessário para purificar ideias, para canalizar energias, para assumir que só Deus é Deus e só Ele há de ser servido e adorado, para que n’Ele nos predisponhamos a servir os irmãos.

 

2 – As tentações clarificam a proximidade de Jesus à nossa condição humana. Também Ele é provado na adversidade. Quantas vezes, no meio dos nossos desertos, interiores e exteriores, nos apetece gritar por Deus? Quantas vezes ficamos sem lágrimas e sem voz, sem palavras e sem forças? Quantas vezes quereríamos que Deus fosse a nossa testemunha contra aqueles que nos fazem mal? E os castigasse de imediato? E se Deus nos desse um sinal claro acerca da Sua vontade?

Mas fixemo-nos no Evangelho: Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto… Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’». Então o Diabo conduziu-O à cidade santa, levou-O ao pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: ‘Deus mandará aos seus Anjos que te recebam nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’». Respondeu-lhe Jesus: «Também está escrito: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». De novo o Diabo O levou consigo a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-Lhe: «Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares». Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, porque está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto’».

Num primeiro registo, as tentações não aparentam nada de mal, e no entanto, desde logo, Jesus mostra-nos uma evidente opção por Deus, por nós, a certeza que a Sua vida e a Sua missão não serão uma imposição pela força, pelo milagre. Ele vai caminhar connosco. Não corta caminho. Segue as dificuldades que se colocam à nossa vida. Não usará a missão em benefício próprio. «Só o pobre se faz pão» (Carlos Antunes). Na identificação connosco, Jesus não transforma as pedras em pão, mas oferecer-se-á, a Si mesmo, como Pão da vida, como alimento que nos sacia até à eternidade.

O papa Leão XIV, na sua mensagem para este tempo de Quaresma, sublinha que o jejum, implicando o corpo, predispõe-nos a acolher a Palavra de Deus, “torna mais evidente aquilo de que temos ‘fome’ e o que consideremos essencial para o nosso sustento”.

 

3 – No início os nossos primeiros pais cederam à tentação diabólica (tudo o que gera divisão e discórdia). Retomando as palavras de D. António Couto, nosso Bispo, na análise a este texto, diríamos que o pecado de Adão e Eva, o nosso pecado, não está no desejo de querer saber mais, ou de comer o fruto da árvore. Este fruto, como os demais são dom de Deus, a favor de todos. O pecado está na apropriação: o fruto é apenas para mim e quanto muito para os meus. E os outros? Acaso sou guarda do meu irmão? Que tenho a ver com eles e com a sua penúria?

E, simultaneamente, o aligeirar da responsabilidade. Não fui eu. Nunca sou eu. Não sabia. Não tinha condições para ajudar. Também isto é pecado.

«Abriram-se então os seus olhos e compreenderam que estavam despidos». Não apenas eles. Também a nós se nos abrem os olhos e o coração e quando nos apercebemos que vivemos apenas a partir de nós e para nós, sem os outros, contra os outros, de costas voltadas às necessidades dos irmãos, e sem contarmos, algum acontecimento nos faz cair na realidade, apercebemo-nos que a nossa vida se resume a pó, a nada, a vazio. Quando damos conta, estamos sós. Estivemo-lo na fartura insolidária, e agora quando precisávamos da companhia, da compreensão, do abraço, da presença afetiva, ficamos numa farta solidão.

O povo eleito, onde seguimos, por vezes deixa-se vencer pela tentação. O caminho do deserto é difícil, como é difícil partilhar a vida em momentos de carestia. Mais fácil é culpar Deus, mais fácil é obrigar Deus a intervir onde a nossa liberdade e criatividade deveriam agir, mais atraente parece o “salve-se quem puder“. Vem Jesus, e de dentro do povo, ensina-nos que a tentação só pode ser vencida com amor, com serviço, com oração, com um coração cheio de Deus. Só um coração expandido pelo amor de Deus nos permite acolher, amar e cuidar do próximo. Jesus sabe isso. Não Se salva a Si próprio. Do alto da Cruz, oferece-se pela humanidade inteira.

Na mensagem para esta Quaresma, o Papa Leão XIV sublinha que “escutar a palavra de Deus na liturgia educa-nos para uma escuta mais verdadeira da realidade”, deixando-nos instruir, também hoje, “por Deus para escutar como Ele, até reconhecer que a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, nas nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja”. Jesus coloca-Se à escuta, em sintonia com as Sagradas Escrituras, através das quais Deus continua a inspirar-nos e, com a palavra bíblica, Jesus responde às tentações diabólicas.

 

4 – Se por um homem veio o pecado, diz-nos são Paulo, na segunda leitura, por um homem há de vir a salvação. No primeiro venceu a tentação da apropriação indevida do dom. No segundo vence a Cruz, desapropriação do AMOR, dom, oferenda, até à última gota de sangue.

Se a morte reinou pelo pecado de um só homem, com muito mais razão, aqueles que recebem com abundância a graça e o dom da justiça, reinarão na vida por meio de um só, Jesus Cristo. Porque, assim como pelo pecado de um só, veio para todos os homens a condenação, assim também, pela obra de justiça de um só, virá para todos a justificação que dá a vida”.

Ele que era RICO, fez-Se pobre, na obediência e no amor, para nos enRIQUECER com a Sua pobreza, com a Sua vida de entrega. Jesus dá-Se por inteiro. O caminho aberto por Jesus condu-l’O à Cruz, assumindo-nos, partilhando as nossas dores e sofrimentos, mostrando que não há demónios que impeçam de nos voltarmos para os outros, ainda que, muitas, vezes, tenhamos de enfrentar sacrifícios, ainda que a dureza do caminho pareça insuportável… a confiança em Deus, a certeza de que segue connosco no caminho, dá-nos a esperança de prosseguirmos.

 

5 – Em jeito de resposta à Palavra de Deus, rezemos juntos, com os lábios e com o coração, o salmo proposto para este primeiro Domingo de Quaresma:

 

Compadecei-Vos de mim, ó Deus, pela vossa bondade,

pela vossa grande misericórdia, apagai os meus pecados.

Lavai-me de toda a iniquidade e purificai-me de todas as faltas.

Porque eu reconheço os meus pecados e tenho sempre diante de mim as minhas culpas.

Pequei contra Vós, só contra Vós, e fiz o mal diante dos vossos olhos.

Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei nascer dentro de mim um espírito firme.

Não queirais repelir-me da vossa presença e não retireis de mim o vosso espírito de santidade.

Dai-me de novo a alegria da vossa salvação e sustentai-me com espírito generoso.

Abri, Senhor, os meus lábios e a minha boca cantará o vosso louvor.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (ano A): Gen 2, 7-9; 3, 1-7; Sl 50 (51); Rom 5, 12.17-19; Mt 4, 1-11.