Domingo III do Tempo Comum – ano A – 2026
1 – «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus». Comum a João Batista e a Jesus Cristo, o convite ao arrependimento, a arrepiar caminho, aderindo ao bem, à justiça e à verdade. A motivação maior é a proximidade do Reino de Deus. São Mateus mostra-nos esta continuidade entre a voz e a palavra, entre o Precursor e o Messias, entre o Batista e o Filho de Deus, mas também a rutura: Jesus é a Luz das Nações.
Mateus mostra-nos outra continuidade, Jesus é o Messias anunciado pelo profeta: “o povo que andava nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam nas sombras da morte uma luz se levantou. Multiplicastes a sua alegria, aumentastes o seu contentamento. Rejubilam na vossa presença, como os que se alegram no tempo da colheita, como exultam os que repartem despojos. Vós quebrastes, como no dia de Madiã, o jugo que pesava sobre o povo, o madeiro que ele tinha sobre os ombros e o bastão do opressor”.
Jesus, o Messias de Deus, vem eliminar toda a treva, vem como servo sofredor, impondo-se pela Palavra, pelo Amor, pela Bondade. Com Ele vê-se a grande LUZ, o Céu desce à terra, Deus faz-Se tão pequeno, tão frágil, que Se torna homem, um de nós, um dos nossos.
2 – O terceiro Domingo do Tempo Comum é também o Domingo da Palavra de Deus. Cada Domingo, e em cada Eucaristia, a Palavra de Deus é parte essencial da celebração, nas leituras propostas e na próprias orações, mas, entendeu o papa Francisco, sublinhar ainda mais a relevância das Sagradas Escrituras na vida dos cristãos. E assim, desde 2020 que este é o Domingo da Palavra de Deus. Surge na proximidade da memória litúrgica do apóstolo são Paulo (25 de janeiro), conhecido precisamente como Apóstolo da Palavra.
Com efeito, Paulo procura que a Palavra de Deus, o Evangelho, Jesus Cristo chegue a todos e a todos esteja acessível, pois é luz e salvação, é caminho, verdade e vida. Ler, escutar, refletir, mastigar a Palavra de Deus, o próprio Cristo que nos fala, para nos identificarmos com Ele, para que a Palavra frutifique em nós e produza abundantes frutos de boas obras. Como em relação à fé, assim o dizia o papa Francisco, é imperioso que a Palavra passe dos ouvidos ao coração e do coração para as mãos, seja luz que nos guia nas nossas escolhas, escolhas que nos comprometem com os outros na transformação (positiva) do mundo em que vivemos.
Prestemos atenção às palavras e aos gestos de Jesus, para percebermos o que diz e o que faz e qual a postura que assume face aos outros e ao mundo concreto no qual nasce, vive e morre, entregando a Sua vida.
2 – Veja-se, antes de mais, a delicadeza de Jesus. Inicia a vida pública, ou pelo menos, torna mais visível e intensa a sua atividade missionária a partir do momento em que João Batista foi preso. Só então Jesus anuncia a proximidade do Reino. Não faz concorrência a João, nem ofusca o seu ministério, ainda que a consciência cada vez mais esclarecida de João apontem para Jesus e para um tempo novo.
A continuidade discursiva (e prática) é evidente. A marca dos discípulos de João é a mesma dos discípulos de Jesus: arrependimento, conversão, adequação da própria vontade à vontade de Deus, isto é, a tudo o que possa traduzir amor, justiça, paz, perdão, solidariedade, partilha. Com Jesus vem a força do Espírito Santo que Ele dará a todo aquele que se predispuser a alargar o próprio coração para acolher Deus e se dar aos irmãos.
Logo de início Jesus Se faz acompanhar mais de perto por alguns discípulos. Não se pode chegar ao todo sem preencher as partes, não se anuncia a boa Nova ao mundo inteiro de forma geral e abstrata. Anuncia-se o Evangelho, o Reino de Deus a pessoas concretas, ao Sr. António, à D. Maria que todos dias vejo à janela, ao Sr. Joaquim que me dá boleia para o trabalho, ao Luís que todos os dias me diz bom dia, ao tio Zé que fica feliz sempre que eu passo à sua porta e lhe pergunto se a esposa está melhor. Jesus cruza-se com pessoas de carne e osso e, sendo verdadeiramente Homem, Ele tem os mesmos limites espácio-temporais. Precisa de outras mãos, de outros pés, de outros corações. Precisa de quem possa continuar o que Ele diz e faz. Chama pelo nome. Pedro, Tiago e João, André e Filipe, Bartolomeu, Mateus e Judas, Ana e Sofia, Ricardo e Tomás, chama cada um de nós. Vamos, ouçamos o que diz, vejamos o que faz, para depois sermos nós evangelizadores, refletindo o Deus que nos habita.
«Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens». Eles foram. E nós, aceitamos o repto de Jesus? Há um tempo para consertar as redes e refazer a vida, curar as mágoas, e há um tempo para seguir Jesus, que se torna uma oportunidade ainda maior para curar feridas.
Pelo caminho, Jesus anuncia o Reino de Deus, cura as pessoas das suas enfermidades. As palavras concretizam-se em gestos concretos. Bem dizer (bênção) e bem fazer (obras, prática).
3 – Chamamento. Seguimento. Envio. Apostolado. Jesus chama, desafia-nos ao seguimento. Cabe-nos percorrer as pegadas de Jesus, procurando atualizar para cada tempo, para cada vida, a postura de conciliação e de amor, de proximidade e de promoção que Jesus prosseguia. A primeira condição é escutar Jesus. A segunda, segui-l’O, ouvir o que Ele diz, ver o que Ele faz, treinar-se a dizer e a fazer como Ele. Por um lado, seguimo-l’O para estarmos sempre com Ele. Por outro, seguimo-l’O para nos deixarmos enviar e nos tornarmos apóstolos, levando a palavra e a cura e a salvação.
O caminho não está isento de dificuldades, próprias da nossa condição mortal e finita.
No seguimento de Jesus, o apóstolo é confrontado com situações que não estaria à espera. É certo que todos partimos do pressuposto que só Deus é perfeito, só Deus é santo. Nessa medida, todos corremos o risco de falhar, por uma ou outra razão, senão agora, amanhã. Mas quando nos deparamos com falhas onde julgávamos que estava tudo bem, poderá advir a desilusão e cansaço.
Paulo convida, novamente, a comunidade a deixar-se converter e transformar por Jesus Cristo, procurando cada um aproximar-se o mais possível do Senhor, e quanto mais perto d’Ele mais perto uns dos outros.
“Rogo-vos, pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma linguagem e que não haja divisões entre vós, permanecendo bem unidos, no mesmo pensar e no mesmo agir. Eu soube, meus irmãos, pela gente de Cloé, que há divisões entre vós, que há entre vós quem diga: «Eu sou de Paulo», «eu de Apolo», «eu de Pedro», «eu de Cristo». Estará Cristo dividido?”
Esta vigilância há de ser um referencial para as nossas comunidades cristãs e para todos os seus membros. Ainda que possa, em determinada altura, haver uma maior identificação com uma pessoa que nos estimula a viver a fé, ou um santo em quem colocamos mais a nossa devoção, a LUZ é sempre Jesus Cristo. É o critério, o conteúdo, o rosto, pelo qual havemos de nos ver como Seus seguidores. É a Palavra encarnada, a Palavra que conta, a última Palavra, pois é divina e conduz-nos da morte à eternidade de Deus.
4 – Para seguir Jesus há certamente muitas condições, o essencial, porém, é deixar-se plasmar e guiar pelo Espírito Santo. Não vamos sozinhos. Deus está connosco, através do Seu Espírito de Amor. Quando as trevas forem mais fortes, rezemos, voltemos a rezar, para que a Sua vontade se realize em nossas vidas.
“O Senhor é minha luz e salvação: a quem hei de temer? O Senhor é protetor da minha vida: de quem hei de ter medo?”. Se Ele está por nós, quem estará contra nós?
Pe. Manuel Gonçalves
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Textos para a Eucaristia (ano A): Is 8, 23b – 9, 3; Sl 26 (27); 1 Cor 1, 10-13.17; Mt 4, 12-23.
