Domingo IV da Páscoa – ano A – 2026
1 – A belíssima imagem do pastor e das ovelhas, em Dia Mundial das Vocações, remete-nos imediatamente para a iniciativa de Deus, que cria por amor, respeitando a nossa liberdade, mas mantendo-Se próximo, potenciando as nossas capacidades e opções. Mas se Ele é o Bom Pastor, que Se mistura com as Suas ovelhas, nós somos o rebanho que deve fixar o olhar em Jesus Cristo. Permanentemente. Para não nos desviarmos, para não nos perdermos, para não corrermos o risco de ser devorados pelos lobos, pelo mal, pelo egoísmo.
Quando nos centramos no nosso interesse, naquilo que comemos, naquilo que temos, a séria possibilidade de nos perdermos dos outros e de Jesus Cristo. Incisiva a imagem: se uma ovelha pastar, preocupada em saciar a sua fome, mas esquecendo-se das que seguem ao lado, ou deixando de avistar o pastor, poderá perder-se momentaneamente ou para sempre. Assim connosco. Em todo o caso, o Pastor vigia o tempo todo e, se o rebanho é muito grande, conta com ajudantes, companheiros, parentes, ou cães de guarda. Nós somos as ovelhas, o rebanho do Senhor, mas somos também os Seus ajudantes, procurando, com a nossa voz e o nosso peregrinar, fazer com que nenhuma ovelha se perca, e como ovelhas não perder de vista os que nos acompanham e Aquele que é o Bom Pastor.
O Bom Pastor dá a vida pelas ovelhas, congregando-as na unidade, procurando as melhores pastagens. «O Senhor é meu pastor: nada me falta. Leva me a descansar em verdes prados, conduz me às águas refrescantes e reconforta a minha alma» (Salmo). Se alguma tem dificuldade em acompanhar o rebanho, o Pastor volta atrás, pega-lhe ao colo ou põe-na aos ombros. É o que faz Jesus pela humanidade. É o que deveremos fazer uns pelos outros. Ele identifica-Se connosco, não para ficar como nós, mas para que nós possamos tornar-nos semelhantes a Ele, seguindo-O.
2 – O pastor conhece as ovelhas pelo nome e sabe as características específicas de cada uma. Elas, por sua vez, conhecem a sua voz, percebem a aproximação até pelo jeito de andar. Se entra no aprisco um ladrão ou salteador, as ovelhas ficam agitadas.
«Aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. As ovelhas conhecem a sua voz. Ele chama cada uma delas pelo seu nome. Caminha à sua frente e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Se for um estranho, não o seguem, mas fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos».
O pastor entra pela porta, às claras, falando, cantando. O salteador, o inimigo, entra silencioso, sorrateiro, para que ninguém se aperceba da sua presença, de noite quando todos dormem, ou em momentos em que o pastor não está por perto. É um pouco como os lobos, pronto para devorar. As obras do bem e da verdade não precisam de estar acobertas da noite e da escuridão.
Outra imagem sugestiva usada por Jesus: «Eu sou a porta das ovelhas. Aqueles que vieram antes de Mim são ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por Mim será salvo: é como a ovelha que entra e sai do aprisco e encontra pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que as minhas ovelhas tenham vida e a tenham em abundância».
É por Ele que seremos salvos. Podemos abrandar o nosso passo, distrair-nos, afastar-nos. Poderemos seguir por outras portas, ou ir atrás de outros “pastores”, mas no final é n’Ele que nos encontraremos como irmãos. Identificando-nos com Jesus, sabemos que estamos no bom caminho. Há que adaptar a nossa vida ao jeito de ser e de viver de Jesus: amando, dando a vida. A salvação que chega até nós não nos castiga ou destrói. Como referia Bento XVI, nas Jornadas Mundiais da Juventude, em Colónia, Cristo não nos tira nada. Ele vem precisamente para que tenhamos a vida e vida em abundância.
3 – Pedro – escolhido por Cristo para sobre ele assentar a Sua Igreja –, mostra-se pastor atento, desenvolto, testemunhando a alegria da Ressurreição mas também as implicações do seguimento.
Nos Atos dos Apóstolos, assumindo a liderança que lhe cabe, diz alto e bom som: «Saiba com absoluta certeza toda a casa de Israel que Deus fez Senhor e Messias esse Jesus que vós crucificastes». A constatação de Pedro traz ao de cima a sua espontaneidade, aproveitando para desafiar: «Convertei-vos e peça cada um de vós o Batismo em nome de Jesus Cristo, para vos serem perdoados os pecados. Recebereis então o dom do Espírito Santo, porque a promessa desse dom é para vós, para os vossos filhos e para quantos, de longe, ouvirem o apelo do Senhor nosso Deus».
O perdão dos pecados e a vida nova no Espírito Santo está ao alcance de todos. Porém e mais uma vez Pedro não esconde as dificuldades do tempo presente. Tornamo-nos novas criaturas mas não super-homens ou supermulheres imunes ao sofrimento.
A identificação a Jesus permite-nos suportar melhor e relativizar as adversidades: “Se vós, fazendo o bem, suportais o sofrimento com paciência, isto é uma graça aos olhos de Deus. Para isto é que fostes chamados, porque Cristo sofreu também por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos. Ele não cometeu pecado algum e na sua boca não se encontrou mentira. Insultado, não pagava com injúrias; maltratado, não respondia com ameaças; mas entregava-Se Àquele que julga com justiça. Ele suportou os nossos pecados no seu Corpo, no madeiro da cruz, a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas suas chagas fomos curados. Vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes para o pastor e guarda das vossas almas”.
Na recente Viagem Apostólica à Guiné Equatorial, o Papa Leão XIV deixou bem claro: “Cristo é tudo para nós. N’Ele encontramos a plenitude de vida e de sentido. Na companhia do Senhor, os nossos problemas não desaparecem, mas são iluminados. Assim como toda a cruz encontra redenção em Jesus, também no Evangelho a história da nossa vida encontra sentido”.
É Jesus, o Bom Pastor, que nos congrega para Deus. É a referência. O testemunho de pessoas próximas de nós ajuda-nos a perceber o caminho, mas o critério último é sempre Jesus Cristo.
4 – Na Mensagem para Dia Mundial das Vocações, Leão XIV põe em destaque a beleza que se manifesta em Jesus: “No Evangelho de João, Jesus define-se literalmente como o «pastor belo» (ὁ ποιμὴν ὁ καλός) ( Jo 10, 11). A expressão indica um pastor perfeito, autêntico, exemplar, na medida em que se mostra disposto a dar a vida pelas suas ovelhas, manifestando assim o amor de Deus. É o Pastor que deslumbra: quem olha para Ele descobre que, seguindo-o, a vida é realmente bela. Para conhecer esta beleza, não bastam apenas os olhos do corpo ou critérios estéticos: são necessárias a contemplação e a interioridade. Só quem se detém, escuta, reza e acolhe o seu olhar pode dizer com confiança: ‘Acredito n’Ele, com Ele a vida pode ser realmente bela, quero percorrer a via desta beleza’. E o mais extraordinário é que, ao tornarmo-nos seus discípulos, nos tornamos também ‘belos’: a sua beleza transfigura-nos”.
Aqui assenta a vocação cristã que se revela “em toda a sua profundidade: participar da sua vida, partilhar a sua missão, brilhar a partir da sua própria beleza”. A relação com Jesus Cristo, o Pastor belo, “constrói-se na oração e no silêncio e, se cultivada, abre-nos à possibilidade de acolher e viver o dom da vocação, que nunca é uma imposição ou um esquema pré-estabelecido ao qual se deve simplesmente aderir, mas um projeto de amor e felicidade”. Com efeito, prossegue Leão XIV, “a vocação, na verdade, não é uma meta estática, mas um processo dinâmico de amadurecimento, favorecido pela intimidade com o Senhor: estar com Jesus, deixar o Espírito Santo agir nos corações e nas situações da vida e reler tudo à luz do dom recebido significa crescer na vocação. Tal como a videira e os ramos (cf. Jo 15, 1-8), assim toda a nossa existência deve constituir-se num vínculo forte e essencial com o Senhor, de modo a tornar-se uma resposta cada vez mais plena ao seu chamamento, através das provações e das inevitáveis podas”.
A finalizar, o santo Padre relembra que “somente se os nossos ambientes brilharem pela fé viva, pela oração constante e pelo acompanhamento fraterno, o apelo de Deus poderá florescer e amadurecer, tornando-se caminho de felicidade e salvação para cada um e para o mundo. … Caminhando pela via que Jesus, o Bom Pastor, nos indica, aprendemos então a conhecermo-nos melhor a nós mesmos e a conhecer mais de perto Deus, que nos chamou”.
É necessário ter o cheiro das ovelhas, como salientava o papa Francisco. O que vale para os pastores, vale para todos. Temos de ter o cheiro daqueles e daquelas que Deus ama com predileção, os pequeninos, pobres, doentes, excluídos. A intimidade com Jesus levar-nos-á a imitá-l’O na preocupação e cuidado pelos outros, preferencialmente os mais desfavorecidos. Próximos de Jesus, o Bom e Belo Pastor, para ouvirmos a Sua voz e não nos perdermos na confusão das vozes que destilam ódio, violência, prepotência e apelam a vinganças. Com o Bom Pastor cuidemos para que todos formemos o único rebanho guiado pelo amor e pela bondade, pela ternura e pela compaixão.
Pe. Manuel Gonçalves
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Textos para a Eucaristia (ano A): Atos 2, 14a. 36-41; Sl 22 (23), 1 Ped 2, 20b-25; Jo 10, 1-10.
