Domingo IV da Quaresma – ano A – 2026
1 – Domingo da Alegria e da luz, da unção e da vida nova trespassada de graça e salvação, da presença de Deus na nossa história, na minha e na tua vida. Deserto e tentações, o pão e a palavra de Deus. Montanha e a altura, Jesus e os apóstolos, vislumbre da eternidade, luz vinda do Céu. A sede e a água, a Samaritana e a Água Viva que é Jesus. Um alimento maior que toda a fome. A verdade e o espírito, a adoração de Deus e o amor aos irmãos.
Mais forte que toda a cegueira, a Luz de Cristo que nos eleva para Deus, que nos faz reconhecer os outros como irmãos. É conhecida a estória do sábio que pergunta aos seus discípulos qual o momento exato em que a noite dá lugar ao dia. Respostas: quando conseguimos ver o chão que pisamos; quando distinguimos a sombras e sabemos se são pessoas ou são árvores; quando surge o primeiro raio de sol no horizonte!
Passa a ser dia, conclui o sábio, no momento em que olhamos para os outros e os reconhecemos como irmãos. É esta a luz que salva, que nos irmana, que nos faz viver e sentir como família de Deus.
2 – Jesus encontrou um cego de nascença. Primeira curiosidade, é Jesus que nos encontra. Claro que será importante que nos predisponhamos a deixar-nos encontrar por Ele. Neste encontro, a proximidade de Jesus e a distância dos seus discípulos. O preconceito, a dúvida, o questionamento. Se ele está cego, alguma coisa fez de errado. Ou ele ou os pais. Infelizmente, ainda na atualidade, o obscurantismo da fé é gigante, manifestando a falsa resignação: foi Deus que quis, paciência! Como se Deus quisesse o nosso mal, como se um Pai tivesse gosto em ver os filhos a sofrer. Ou, a consequência (aparentemente) lógica do pecado.
Jesus não se interroga nem explica esta fragilidade, mas faz o que está ao Seu alcance para resolver ou minorar a situação. Em vez das palavras e da reflexão filosófica e/ou moral e religiosa, Jesus intervém para curar, para salvar, para sanar todo o mal, não apenas o mal físico mas tudo o que anoitece a vida humana. «É preciso trabalhar, enquanto é dia, nas obras d’Aquele que Me enviou. Vai chegar a noite, em que ninguém pode trabalhar. Enquanto Eu estou no mundo, sou a luz do mundo».
Ele vem como Luz, para iluminar todos os recantos da vida humana. As trevas fazem-nos tropeçar e atropelar os outros. É dia quando e sempre que eu reconheço o outro como irmão.
Para os judeus, e para muitos de nós, aquele cego não é bendito por Deus. É desprezado e excluído. Já não basta a falta de vista quanto mais a exclusão social e religiosa. Jesus inclui-o. Não de forma mágica, mas com o poder de Deus e a unção da terra e da vida (terra e saliva), e com a água que lava e purifica. Novamente este elemento. Precisaria Jesus de utilizar estes elementos da natureza? Talvez não, mas uma vez mais Jesus nos remete para a terra, para os dons da natureza, para o esforço, pouco ou muito, mas que se exige a quem quer ser curado por Ele.
4 – Diante do assombro, o medo ou a conversão, a maledicência ou o silêncio, a indiferença ou o testemunho, a negação e o cinismo ou a abertura ao mistério. Mais cego é aquele que não quer ver.
O cego de nascença foi curado. Os vizinhos e os que o tinham visto a mendigar interrogam-se e interrogam-no, incrédulos, atónitos. Este homem dá testemunho do que nele se operou pelas mãos e pelas palavras de Jesus.
Entram em cena os fariseus e o legalismo, o preconceito. Diante do milagre reconhecido, a suspeição e a insinuação. Por todas as formas tentam desacreditar o milagre, mas como são muitas as pessoas que conheciam o cego de nascença e testemunham que agora ele vê, arranjam outra desculpa para não aceitarem Jesus. Afinal, Ele curou o cego. O mal passa a ser o dia da cura, como se Jesus não viesse de Deus por fazer tais coisas ao sábado. Não querem ver e portanto há que arranjar desculpas! Parecem aquelas pessoas que se justificam com o não ir à Missa pelo facto dos outros não serem piores do que aqueles que não vão! É uma desculpa infantil.
O interrogatório vai-se fazendo mas já com uma ameaça prévia: quem professar que Jesus é o Messias será expulso da Sinagoga. Perante a insistência, aquele que era cego lança-lhes o repto: estais tão interessados em saber, será que quereis tornar-vos seus discípulos? A resposta dos fariseus, embora negando Jesus, é também um profissão de fé: «nós somos discípulos de Moisés. Nós sabemos que Deus falou a Moisés; mas Este, nem sabemos de onde é». Vale a pena deter-nos na resposta do homem curado: «Isto é realmente estranho: não sabeis de onde Ele é, mas a verdade é que Ele me deu a vista. Ora, nós sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aqueles que O adoram e fazem a sua vontade. Nunca se ouviu dizer que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer».
Perante tal testemunho e convicção, os fariseus e os doutores da Lei expulsam-no da Sinagoga, reafirmando que a cegueira é consequência do pecado, «Tu nasceste inteiramente em pecado…».
5 – A cura é um primeiro passo, a conversão dá mais trabalho. Na maioria das vezes Jesus exige a fé (prévia) para intervir curando. No relato desta cura não se faz qualquer referência à fé deste homem. Sinal e expressão que Deus age além de nós, toma a iniciativa e a Sua misericórdia não está confinada à nossa vontade. Claro que depois cabe-nos acolher ou recusar a bondade e as maravilhas do Senhor.
No Evangelho não sabemos como prosseguiu a vida de alguns dos que foram curados por Jesus. Uns passaram a segui-l’O; a outros, Jesus recomendou-lhes que regressassem às suas famílias e dessem testemunho das maravilhas de Deus neles realizadas. Alguns são curados e não mais se lembram de quem os curou, como no caso dos 10 leprosos em que só um vem agradecer, louvando e dando glória a Deus.
Tendo conhecimento do que os fariseus e doutores da Lei fizeram a este homem, Jesus veio ao seu encontro e, então sim, desafia-o à fé: «Tu acreditas no Filho do homem?». A fé é muito mais que um conjunto de ideias, ainda que credíveis, a fé é um encontro. Deus vem ao nosso encontro e em Jesus Cristo encontra-nos no nosso peregrinar, no nosso caminho. A fé decide-se diante Jesus: «Eu vim a este mundo para exercer um juízo: os que não veem ficarão a ver; os que veem ficarão cegos».
Jesus termina o diálogo com os fariseus e doutores da Lei, dizendo-lhes, «Se fôsseis cegos, não teríeis pecado. Mas como agora dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece». Um trocadilho sugestivo, a cegueira, isto é, a inocência, a pureza, livra do pecado; a presunção e o auto endeusamento geram pecado, tornam-nos cegos.
A verdadeira cura, o milagre mais difícil é a conversão do coração e a persistência no bem.
6 – Para nós, que fomos batizados na água e no Espírito Santo, a luz deve guiar-nos pelo caminho do bem, pelo caminho de Jesus. «Outrora vós éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor».
Se fomos libertados das trevas, como nos lembra o apóstolo, ajamos como tal, como filhos da luz. Procuremos em tudo o que mais agrada ao Senhor, afastando-nos do mal, das obras das trevas: a injustiça, a mentira, a hipocrisia, a corrupção. «Desperta, tu que dormes; levanta-te do meio dos mortos e Cristo brilhará sobre ti». A autenticidade da nossa fé é verificável pelos frutos da luz: a bondade, a justiça e a verdade. O bem e o cuidado pelos outros devolve-nos a visão e conduz-nos à eternidade; o pecado da indiferença, do egoísmo, da prepotência cega-nos, não nos deixa reconhecer que o irmão é dom, não nos deixa entrever a eternidade de Deus.
7 – O pecado acompanha-nos, faz parte da nossa condição mortal, finita, limitada. Mas não estamos sós. O mal maior não está no pecado, está em não nos reconhecermos pecadores. O mal não são os pecadores que se predispõem a acolher a misericórdia do Senhor, o mal são os corruptos, os hipócritas, que persistem no mal e não se abrem ao bem de Deus. O Papa Francisco repetia amiúde esta ideia: pecadores sim, não corruptos. Não há nada que Deus não possa perdoar, redimir, menos a idolatria, ou seja, aqueles que se colocam no lugar de Deus, excluindo-O, e maltratando os irmãos.
Não estamos sós. Frágeis, somos fortalecidos pela graça do Senhor. Ele é o Bom Pastor que nos guia e nos conforta. Não nos falta, Ele nos leva a descansar em verdes prados e nos conduz às águas refrescantes, para sempre habitaremos na casa do Senhor, que nos vê além das aparências que nos confundem e nos levam a agir, por vezes, de forma preconceituosa.
Na primeira leitura, Samuel é enviado por Deus para ungir um novo Rei. A perceção de Samuel é semelhante à nossa, o nosso olhar é exterior, fixa-se nas aparências e corremos o risco da cegueira, incapazes de ver o verdadeiro bem e os sinais da presença de Deus. Samuel deslumbra-se com os irmãos de David, pela estatura, pelo porte, pela beleza. Com efeito, diz-nos o Senhor, «Deus não vê como o homem; o homem olha às aparências, o Senhor vê o coração».
Os sete filhos passam diante de Samuel e todos parecem reunir qualidades para assumirem a realeza. No final, Deus escolhe aquele que não conta, jovem e pastor. Andava no campo a guardar o rebanho! É ungido pelo Senhor, através de Samuel. Tornar-se-á um grande Rei, com pecados, mas temente a Deus, sempre, em todo o tempo.
8 – «Deus de misericórdia, que, pelo vosso Filho, realizais admiravelmente a reconciliação do género humano, concedei ao povo cristão fé viva e espírito generoso, a fim de caminhar alegremente para as próximas solenidades pascais» (Oração de coleta).
Pe. Manuel Gonçalves
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Textos para a Eucaristia (A): 1 Sam 16, 1b. 6-7. 10-13a; Sl 22 (23); Ef 5, 8-14; Jo 9, 1-41.
