Domingo V da Quaresma – ano A – 2026

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Domingo V da Quaresma – ano A – 2026

1 – “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá; e todo aquele que vive e acredita em Mim, nunca morrerá”. A afirmação de Jesus é inaudita e surpreendente, e incontornável. A interpelação a Marta vai muito para além de uma conceção de vida apenas terrena e material, transcendendo-nos nas nossas limitações humanas.

A fé é essencial para que a vida ressurja constantemente. Jesus desafia a fé de Marta, para que não se deixe afoguear pela dor e pelo luto, mas, ela e nós, se abra à confiança plena em Deus, na certeza de que, para os crentes, como nos recordará são Paulo, a vida não acaba apenas se transforma e desfeita a morada deste exílio terrestre, entraremos na morada eterna, já não feita por mãos humana, mas dádiva de Deus e que n”Ele perdurará para sempre.

A ressurreição, para nós, crentes cristãos, é crucial, é o ponto de partida da nossa vida espiritual e a nossa meta. Está presente em todo o tempo. Radicámos toda a nossa vida de fé a partir da ressurreição de Jesus Cristo, como antecipação da nossa ressurreição para a eternidade de Deus. Aliás, em cada Eucaristia, em cada Domingo e, como solenidade, anualmente, a liturgia da Igreja centra-se na Páscoa de Jesus. Como referiu Bento XVI, no Porto, a 14 de maio de 2010, tudo se encaminha para Cristo, tudo parte de Cristo. Jesus Cristo, no mistério da nossa redenção, mistério pascal, é o centro da nossa vida cristã. A Cruz é sinal e expressão do amor de Deus concretizado em Jesus Cristo, mas é também caminho, projetando o nosso olhar para o alto, para o Céu, para Deus, para Luz que irradia da Páscoa.

 

2 – Quando Marta se aproxima de Jesus, quando Maria O interpela, uma e outra confiam no Seu poder e sabem que Deus está com Ele. Marta acredita em Jesus. Maria diz mesmo que a presença de Jesus evitaria a morte do seu irmão. Ambas sabem que a vida e a ressurreição acompanham Jesus, na Sua pregação, nos seus gestos e na promessa de nos preparar uma morada eterna. Compreendem que a vida não se esgota agora, no tempo presente, creem na ressurreição, ainda que a separação de Lázaro lhes traga sofrimento e tristeza. Não é o fim. Esta certeza, contudo, não anula a dor, mas enquadra-a na garantia da eternidade. A ressurreição está remetida para o Além, não para já, não para agora, não para este tempo, mas para o futuro de Deus. Ora Jesus desafia a acreditar contra toda a esperança no poder de Deus.

“Jesus, levantando os olhos ao Céu, disse: «Pai, dou-Te graças por Me teres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas falei assim por causa da multidão que nos cerca, para acreditarem que Tu Me enviaste». Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora». O morto saiu, de mãos e pés enfaixados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário”.

A ressurreição de Lázaro é antecipação da ressurreição de Jesus. É sinal e expressão, tal como outros prodígios realizados por Jesus, que o poder de Deus está no meio de nós, pela fé e simultaneamente que o mal, o sofrimento, a doença e a morte devem ser combatidos até onde for humanamente possível, com a ajuda de Deus. Mas, contrariamente à ressurreição de Jesus, a de Lázaro é sobretudo uma reanimação, para a vida terrena. Biologicamente, na nossa finitude e fragilidade humanas, a morte chegará um dia. Também a de Lázaro. Mas não como fatalismo. Na ressurreição do Seu amigo, Jesus mostra-nos que o poder de Deus vence a morte, como mais claramente se verá na Sua própria ressurreição. A separação dos entes queridos é passageira, logo nos encontraremos na comunhão gloriosa dos santos. Por enquanto, cabe-nos viver, com alegria, iluminados pela presença amorosa de Deus que vive em nós e Se faz presente, com Jesus, no Seu corpo e no Seu sangue derramado por nós e para nossa salvação.

 

3 – Enquanto caminhamos neste “vale de lágrimas”, onde nos deparamos com o sofrimento, com a doença e com o mal, com a solidão e com a morte, somos enlevados pela esperança que Se funda nas promessas de Deus a Israel: “Assim fala o Senhor Deus: «Vou abrir os vossos túmulos e deles vos farei ressuscitar, ó meu povo, para vos reconduzir à terra de Israel. Haveis de reconhecer que Eu sou o Senhor, quando abrir os vossos túmulos e deles vos fizer ressuscitar, ó meu povo. Infundirei em vós o meu espírito e revivereis. Hei de fixar-vos na vossa terra e reconhecereis que Eu, o Senhor, o disse e o executarei»”. Aqui de novo se pode entender a fé na ressurreição em dois sentidos: os que morrem ressuscitarão para a vida eterna; o povo enquanto tal não morrerá mas será reconduzido para a terra prometida, renovando-se.

Um e outro sentido, são garantia que Deus continuará a agir na história e no tempo a favor da humanidade.

Mas não apenas isso. A nossa esperança agora tem um rosto, real e concreto, Jesus Cristo, que vem de junto de Deus para nos mostrar o Seu amor, e regressa, pela Sua morte e ressurreição, para nos introduzir no Reino eterno de Seu e nosso Pai. “Vós não estais sob o domínio da carne, mas do Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós… E, se o Espírito d’Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo Jesus de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós”.

A fé em Jesus Cristo, Filho de Deus, morto e ressuscitado, dá-nos a certeza de que a nossa identidade humana não se perderá com a morte natural, mas prosseguirá na eternidade, na comunhão dos santos, com a ressurreição da carne.

 

4 – Como Jesus, também nós nos confiamos no Deus da vida. “Senhor nosso Deus, concedei-nos a graça de viver com alegria o mesmo espírito de caridade que levou o vosso Filho a entregar-Se à morte pela salvação dos homens.

 

Pe. Manuel Gonçalves

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Textos para a Eucaristia (A): Ez 37,12-14; Rom 8,8-11; Jo 11,1-45.