Domingo XI do Tempo Comum – ano A – 2026
1 – “Recebeste de graça, dai de graça”.
São João da Cruz sublinhará que o amor com amor se paga. Uma expressão que tantas vezes usamos de forma pejorativa, mas que na verdade radica na entrega radical de Jesus a favor da humanidade. Pagar com amor o amor que Jesus nos dá, dando-Se. Jesus gasta-Se por inteiro, mostrando-nos que o amor de Deus é infinito, duradouro, é porta e garantia de eternidade. Só o amor nos conduz, em definitivo, a Deus. Só o amor traduz e concretiza a fé e o amor de Deus que acolhemos amando os Seus filhos, amando todos aqueles que Ele coloca na nossa vida. Não há maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos. Jesus considera-nos amigos. Melhor, Jesus reconhece-nos e assume-nos como irmãos.
O evangelho mostra-nos a postura de Jesus, próximo, irmão, sem agenda, sem reservas, sem preconceitos, disponível para ouvir, para abraçar, para incluir, para curar. Não se faz rogado e não receia “contaminar-se” com os pobres, os doentes, os pecadores, os publicanos, as mulheres de vida duvidosa, os excluídos, não receia ser malvisto. Não vive para preservar uma imagem pura, uma imagem exterior de santidade, a sua preocupação é amar, servir, perdoar, salvar, resgatar do medo, das trevas, da morte.
2 – Jesus conta connosco para continuar esta obra de amor que resgata, que abraça e salva. O Evangelho fala-nos de multidão, de chamamento e eleição, fala-nos de envio e missão.
Fixemos o nosso olhar em Jesus. Ao ver as multidões sobrevém a compaixão. É a identidade de Jesus. Muitos momentos em que os autores do evangelho se referem à comoção de Jesus e cuja empatia se torna visível. A compaixão (sofrer com… simpatia… empatia) de Jesus está presente em situações de grande dor, em histórias de sofrimento, em momentos tenebrosos. Mas não basta a comoção. A compaixão leva a agir, a fazer o que está ao alcance de cada um. Ele não se queda pela comoção, age, acolhe, liberta, cura, valoriza a pessoa que que sofre.
Ao ver as multidões, Jesus encheu-se de compaixão, pois eram como ovelhas sem pastor, fatigadas e abatidas. O primeiro desafio é o da oração: «A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara». Os trabalhadores hão de despertar consciências, animando, resgatando, dando sentido às questões, dúvidas, sofrimentos, buscas.
Para esta seara, que é o mundo, e um mundo cada vez mais abatido, mais doente, mais perigoso, Jesus escolhe os apóstolos: “Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou”.
E logo Jesus os envia, com instruções claras: “Proclamai que está perto o reino dos Céus. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça”. A lógica é redimir, curar, salvar, expulsar o mal, acalentar a esperança e irradiar alegria. Ontem foram aqueles, hoje é connosco. Está nas nossas mãos espalhar o amor de Deus, semear a esperança, construir a fraternidade iniciada por Jesus e n’Ele alicerçada.
3 – O centro, a referência, o ponto de partida, mas também de chegada é Jesus Cristo. O Seu alimento é fazer a vontade do Pai e a vontade do Pai é que ninguém se perca. Todos são filhos e herdeiros da promessa, a todos se destina a salvação e todos são convidados para o Reino de Deus. Melhor, mais do que convidados, somos irmãos do noivo, irmãos do Senhor Jesus, filhos amados do mesmo Pai. O que é meu é teu. Na parábola do filho pródigo, sublinha-se a pertença, o filho não precisa de convite, nem de adornos, ele é amado porque é filho, pode dispor de tudo, sem posse, porque amar liberta-nos, torna-nos mais leves, amar e acolher o amor do pai, da mãe, dos irmãos, dos amigos, faz-nos livres, leves, desprendidos para viver, para festejar sem motivos de maior, basta o amar e sentir-se parte da família.
É ao amor de Jesus que respondemos amando, cuidando e servindo os irmãos.
Na segunda leitura, são Paulo sublinha o amor primordial de Deus, amor-primeiro, originante, um amor que precede qualquer merecimento da nossa parte. Um amor que não responde a méritos, a conquistas ou a aquisições. É uma amor que é alicerce, fundamento, que vem antes da própria vida. É o amor que gera a vida. É o amor que extravasa do Coração de Deus que faz acontecer a criação inteira.
Antes… o amor que nos precede. “Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. E agora, que fomos justificados pelo seu sangue, com muito mais razão seremos por Ele salvos da ira divina. Se, na verdade, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, com muito mais razão, depois de reconciliados, seremos salvos pela sua vida”.
Certos deste amor maior, respondamos com amor. Não é a ameaça que nos une, não é a violência que nos sossega, não é a prepotência que nos irmana. É o amor que nos faz regressar a casa e nos faz sentir em e como família.
4 – Em Jesus Cristo revela-se a plenitude do amor de Deus para connosco, para com a humanidade inteira. Porém, toda a história da salvação, todas as páginas do Antigo Testamento manifestam o amor de Deus. A eleição do povo não se baseia nos méritos, na grandeza, no poder desse povo, mas é consequência do amor Deus. Um pai, uma mãe, não esperam que o filho seja bom, seja grato, seja amável, para o amarem, primeiro amam e esfolam-se para que o filho tenha tudo e seja feliz. E mesmo quando os filhos são rebeldes, ingratos, controladores, os pais continuam a amar; mesmo magoados, eles não deixam de viver em função dos filhos, por vezes esquecendo-se de si mesmos.
Moisés, o grande interlocutor de Deus, faz chegar ao povo as palavras do Senhor: “Vistes o que Eu fiz ao Egito, como vos transportei sobre asas de águia e vos trouxe até Mim. Agora, se ouvirdes a minha voz, se guardardes a minha aliança, sereis minha propriedade especial entre todos os povos. Porque toda a terra Me pertence; mas vós sereis para Mim um reino de sacerdotes, uma nação santa”.
O Senhor Deus lembra como agiu a favor de todo o povo. Como águia que cuida das suas crias e as transporta para as alturas, assim Deus cuida e nos transporta para um reino de paz, de amor e de concórdia. Recordar as maravilhas do Senhor é trampolim para apostar na unidade, na harmonia e na paz. Quando sentes o calor do amor, do carinho, da delicadeza, aproximas-te e deixas-te ficar, permaneces, sem pressa de partir. É esse o combustível que solidifica amizade, que constrói, fundamenta e fortalece a fraternidade. Cumprir os mandamentos, guarda a aliança de Deus, não é uma obrigação imposta, é um caminho que nos enlaça, uma opção pelo amor. Ao amor de Deus, respondemos ao amor ao nosso semelhante.
5 – Se guardarmos a Aliança, que começa por ser unilateral, Deus ama-nos infinitamente, então tornamo-nos o Seu povo, ovelhas do Seu rebanho.
Sentirmo-nos amados, acolhidos, queridos, faz-nos transbordar de alegria, gratos pela bondade de Deus. “Aclamai o Senhor, terra inteira, / servi o Senhor com alegria, / vinde a Ele com cânticos de júbilo. / Sabei que o Senhor é Deus, / Ele nos fez, a Ele pertencemos, / somos o seu povo, as ovelhas do seu rebanho. / Porque o Senhor é bom, / eterna é a sua misericórdia, a sua fidelidade estende-se de geração em geração”.
Ao cântico, com que reconhecemos o amor de Deus e as maravilhas que realiza a nosso favor, unimos a nossa prece, para que o nosso coração se dilate e nele caiba o coração de Deus e caibam todos os que Deus ama como filhos. “Senhor nosso Deus, fortaleza dos que esperam em Vós, atendei propício as nossas súplicas; e, como sem Vós nada pode a fraqueza humana, concedei-nos sempre o auxílio da vossa graça, para que as nossas vontades e ações Vos sejam agradáveis, no cumprimento fiel dos vossos mandamentos”.
Os mandamentos do Senhor ganham vida no mandamento novo do amor: amar como Jesus nos amou! Empenham-nos em prol de todos, especialmente dos mais frágeis.
Pe. Manuel Gonçalves
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Textos para a Eucaristia (ano A): Ex 19, 2-6a; Sl 99 (100), Rm 5, 6-11; Mt 9, 36 – 10, 8.
